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sábado, 18 de julho de 2020

CONTOS -- IMPÉRIO DAS GRAVATAS

IMPÉRIO DAS GRAVATAS  
Ano de 1948 na cidade de Lins. Ele, menino de doze anos, com os pais trabalhando no sítio, foi morar com uma tia na cidade para estudar.  Frequentava  o  4° ano no Grupo Escolar “Dom Henrique Cesar Fernandes Mourão.
No dia do recebimento dos Diplomas os meninos, todos, usavam GRAVATINHA borboleta; esta experiência foi marcante  para  toda sua vida profissional. A tia, vez por outra escorregava   algumas  moedas para uma ida à matinê domingueira no Cine São Sebastião e, se sobrasse alguns trocados poderia tomar um sorvetão na Leiteria fronteira ao cinema. Ao final da tarde, zerava os  bolsos  da calça curta.
Ele era um menino estudioso e ambicioso. Sendo aulas matinais ele procurou trabalhar no período da tarde e encontrou na Rua 7 de setembro uma loja de finos artigos masculinos. Conversou  com o proprietário, um libanês de nome Teodoro Risk, pessoa muito simpática que  percebendo no menino interesse em trabalhar, o admitiu para o período vespertino.
Assim como no cinema , foi aberta uma maravilhosa cortina e o deslumbrado menino viu desfilar à sua frente, as maravilhas dos trajes para os adultos. A Loja, muito bonita tinha o nome de “A Elegância”. As camisas eram de cambraia de linho,  sempre com colarinho-branco engomado.
Cuecas e meias Lupo e sapatos nas cores marron e preto, ou preto envernizado, em cromo alemão, da marca  Scatamachia. Gravatas de seda outras de tecidos comuns para combinar com os ternos de linho ou de casimira,  era  um luxo só. Os preços, bem…os preços eram só acessíveis à pequena burguesia ascendente uma vez que  na cidade de Lins o forte da economia era o café e o gado.
Portanto, o menino deslumbrado conheceu, logo no início da vida,  o que era vender produtos para pessoas bem situadas  economicamente.  O menino aprendeu a arrumar as vitrines e ficava encantado olhando para os manequins exibindo ternos, Gravatas e sapatos de ótima qualidade.  A loja, foi uma excelente experiência de vida e ao findar o ano , foi dispensado recebendo  pela primeira vez, uma carta de apresentação,  assinada pelo proprietário, muito  elogiosa pelos bons serviços.  
Terminada a escolarização foi trabalhar em um Banco.   Na época 1950,  os Bancos determinavam que seus funcionários usassem camisas sociais ou de mangas curtas sempre com Gravatas. Para ele não foi novidade, já conhecia há muito tempo! Após cinco anos como Bancário foi convocado para o Exército e lá, após o primeiro ano como soldado raso e cabo arranchado foi promovido à  3° Sargento. 
Quando usava o 5° uniforme, de passeio, era para colocar, obrigatoriamente  camisa e Gravata bege;  Após treze anos como militar, deixa a caserna, muda-se para São Paulo e lá, aprovado em Faculdade de Direito assiste aulas, durante cinco anos, vestido por ternos e  Gravatas. Terminado o Curso, vai para o escritório e passa a frequentar o Fórum. Como sabemos, Advogados só se apresentam em audiências, uniformizados por terno, Gravata e uma pasta  tipo  causídico;  Paralelamente ao escritório e convidado para lecionar em Faculdades, matérias de Direito, novamente ternos e Gravatas.
Aposentado pela compulsória,  é  nomeado para ser o  Coordenador de um Projeto “A OAB VAI À ESCOLA” e nos contatos com Diretores, Professores, Supervisores de Ensino e Colegas de profissão,  tão acostumado que estava com os ternos e Gravatas, e dado ao hábito  assim se apresentava. A partir de 2012, gradativamente foi deixando nos armários todo arsenal dos trajes sociais.
Com menos formalidades,  adotou uma postura mais simples com camisas esporte, tênis, sandálias bermudas, bonés, óculos esportivo. Olhou para o guarda-roupa:  lotado!.  Por decisão própria resolveu  levar ao Asilo vários ternos, sapatos,  camisas sociais, várias dezenas de Gravatas em visível desapego.  Algumas eram alegrinhas, exibiam bichinhos e bonecos da Disneylandia, outras discretas e listradas. No guarda-roupa ainda restaram poucas para possíveis ocasiões onde se exige o social.
 O menino  foi  alcançado pelo Mundo Novo após setenta e dois anos, e há que se conformar com a declarada guerra às Gravatas, elas não entendem o porquê, estão esquecidas, penduradas, uma ao lado da outra esperando a voragem do tempo até a despedida final. Voltando ao título desta crônica, as Gravatas exerceram verdadeiro Império e governo na vida deste subscritor e foi triste, muito triste deixá-las, afinal, aqueceram o  pescoço ao longo de tantos e tantos anos…  Falar de Gravatas é falar de nostalgia, é falar de saudades…
                                                      Roque Roberto Pires de Carvalho
                                                     Email:roquerpcarvalho@gmail.com

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