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| Roque Roberto Pires de Carvalho COLUNISTA DO JORNAL j b |
Em tempos de grandes agitações e transformações, a tosse ganhou prestígio e renome internacional.
Quando criança sua mãe o tratava de tosse comprida que para a ciência era conhecida como coqueluche.
Nos tempos em que era coroinha de uma Catedral interiorana conhecia todo ritual da missa em Latim que hoje, dizem ser língua morta mas que na época essa língua era muito viva e falada em todas Igrejas, muito embora ninguém entendesse nada direito.
Quando respondia trechos, ele não distinguia se sua rouquidão era por causa da antiga infecção ou se era pelo enrolar da lingua e a missa prosseguia, o padre que não se dirigia e nem mesmo olhava para o público, dizia solenemente “dominun vobiscum” e ele respondia.
Era um espetáculo! No pátio frontal havia uma barraca desativada por falta de datas importantes para serem festejadas, nela passava dias e noites um homem muito idoso, barbas por fazer há muito tempo, roupas em farrapos, vítima dos garotos mal-educados que o ofendiam chamando-o de “capivara”.
Bastava ele ouvir, deixava a barraca munido de bordão, corria atrás dos ofensores, mesmo com dificuldades, sem alcançar nenhum menino. Esse fato sempre ocorria.
De tanto assistir ou ouvir impropérios este subscritor não se sentia culpado. Não obstante, os tempos foram passando e chegou a hora de ser aluno universitário e professor. Todas as vezes que era chamado para provas orais ou ministrar aulas, percebia uma certa dificuldade ao pronunciar palavras.
Parecia estar com um ovo na boca dificultando a pronúncia e causando mal-estar, provocado sempre por uma tosse seca e impertinente. Alunos comentavam em surdina que o Prô era fanho… Lembrou-se do idoso morador na barraca ! – será que ele pensou ser eu, um daqueles moleques desrespeitosos? – Será que alguma maldição havia sido lançada ao espaço e agora estava me atingindo…? – Não…não…e não…? – Achou melhor procurar um otorrinolaringologista, sentia-se afônico só em dizer essa especialidade.
Afinal, diziam que o mundo passava por uma Pandemia segundo o Presidente da Organização Mundial da Saúde e que um dos sintomas era uma tal de “tosse seca” com agravante para pessoas idosas e super-idosas. Acreditava estar na segunda hipótese, mas de qualquer forma seria bom buscar recursos médicos.
O discípulo de Esculápio antes dos exames solicitou meu CPF para saber a idade e discretamente anotou – longevo. Sem conversas e olhando para o computador receitou uma injeção, ofereceu uma bombinha para casos de falta de ar e um produto de nome esquisito de Berotec para inalação com soro fisiológico, limpar as mãos com álcool-gel e usar máscara de proteção.
Disse que por ora não havia febre e, na ocorrência procurasse qualquer PA – ele não conhecia a sigla e procurou saber com um assustado paciente que perambulava pela sala de espera.
Alguns produtos recomendados não foram encontrados nas farmácias. Regressando ao lar ficou sabendo que vários vizinhos, solidários e preocupados, ao saberem de sua ida ao médico, providenciaram uma lista de remédios caseiros, dentre eles o chá de erva-cidreira, erva-doce, folha de eucalipto, pitangas, camomila, adicionando em alguns, como opção, um dente de alho macerado. Foram feitos registros dos telefones de emergência, tipo SAMU, Bombeiros e de parentes.
Pensou com seus botões… será que a coisa vai pegar…? Era sempre otimista e assim pediu à esposa um chazinho bem quente de folha de eucalipto, sem o tal alho. Deixar por perto, como prevenção, um cobertor corta-febre.
A injeção, para o dia seguinte, bombinha e Berotec só em emergência, recomendou, só em caso de emergência ! Se o momento mundial era para prevenção, lembrou-se ter guardado na gaveta de sua escrivaninha, lado esquerdo, uma pasta de cor vermelha contendo exatamente alguns Planos, dentre eles o de saúde, o funerário e para quem está na linha de risco a ordem dada é – prevenção ! – Não sair de casa !
Roque Roberto Pires de Carvalho
e-mail:roquerpcarvalho@gmail.com

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