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sexta-feira, 24 de julho de 2020

COLUNISTA — Roque Roberto Pires de Carvalho — C O N T O S

  COLUNISTA — Roque Roberto Pires de Carvalho — C O N T O S

NAS ASAS DO VENTO

Era uma noite de sábado, calma, serena e  gostosa; suave aragem inundava aquele ambiente de muita paz. Sozinho em seu quarto e olhando pela fresta do batente via o clarão da lua cheia.
Para sua surpresa eis que entra pela janela aberta da casa grande, sem pedir  licença,  uma flor,  uma  flor branca/leitosa  exalando discreto perfume.
Não era de seu direito identificá-la ou perguntar sua origem. Recolheu a flor em suas mãos e passou a examiná-la. Nunca havia visto flor igual, mas sabia algumas histórias…  a misteriosa  tinha o seu    desabrochar  por volta de vinte e duas horas, sobrevivendo linda, elegante e charmosa até por volta de quatro horas da madrugada, hora do seu recolhimento ditado pela natureza.
A curiosidade para conhecê-la  melhor,  saber a  sua origem e  período  de seu encanto perdurou por algum tempo, sendo que ao indagar de um ou de outro, ouviu pela primeira vez  tratar-se da “flor-de-baile” ou “dama-do-baile” dadas suas aparições noturnas. Quando das indagações,  ele conheceu alguém que iria ajudá-lo na arte de plantar e cultivar flores e esse alguém,  era uma moça tão bonita e vistosa  quanto a flor visitante  daquela noite.
No primeiro encontro com esse alguém falando apenas de flores,  algumas palavras que poderiam ser ditas ficaram no cofre do coração e suas chaves, tão bem guardadas ficaram que desapareceram do olhar. Aquele encontro poderia ser o início de um relacionamento humano bom e duradouro, ou mesmo, efêmero como o vento outonal ou a existência também efêmera daquela flor.
 Acabou sendo o fim sem ter, sequer, começado.  Ele, apesar de muitos anos vividos era tímido, acanhado e por quê não dizer, medroso ! Saber a origem da flor branca/leitosa bastava para ele. Sua opção de estar só não era entendida e nem mesmo compartilhada por circunstantes.
Refletia sempre e entendia que sua vida iria se recompor, ele era muito feliz nas suas múltiplas atividades e se faltava algum colorido, como ouvia dizer alhures, ele acreditava e havia evidências disso sobre esse tão falado,  decantado e  colorido amor; era questão de dar tempo ao tempo. Recebia sempre sugestões  de passeios,  viagens, freqüência aos clubes, restaurantes, arrumar namorada  para um breve  romance ou até mesmo relacionamento de maior duração; tais sugestões, individualmente, mereciam de sua parte uma forte  decomposição das idéias.
Se era para sonhar que esse sonho fosse de olhos abertos. A imparcialidade do grande espelho da sala e a sua visível longevidade não deixavam dúvidas;  entendia não ter o direito de delegar à outrem as preocupações com as quais já se ocupava.
 A lareira com sua boca inútil,  estava  longe de aquecer seu coração e as cinzas ainda visíveis,  remanesciam do  último inverno passado ao lado do  seu   inesquecível, verdadeiro e saudoso  amor. Aquele alguém prestativo, dizendo à ele a origem da flor branca/leitosa, que surgiu do nada,  apenas   nas asas  do vento,  inoculou desejos de há muito tempo não experimentados…
                                     Roque Roberto Pires de Carvalho
                                   E-mail:roquerpcarvalho@gmail.com

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