COLUNISTA — Roque Roberto Pires de Carvalho — C O N T O S
NAS ASAS DO VENTO
Era uma noite de sábado, calma, serena e gostosa; suave aragem inundava aquele ambiente de muita paz. Sozinho em seu quarto e olhando pela fresta do batente via o clarão da lua cheia.
Para sua surpresa eis que entra pela janela aberta da casa grande, sem pedir licença, uma flor, uma flor branca/leitosa exalando discreto perfume.
Não era de seu direito identificá-la ou perguntar sua origem. Recolheu a flor em suas mãos e passou a examiná-la. Nunca havia visto flor igual, mas sabia algumas histórias… a misteriosa tinha o seu desabrochar por volta de vinte e duas horas, sobrevivendo linda, elegante e charmosa até por volta de quatro horas da madrugada, hora do seu recolhimento ditado pela natureza.
A curiosidade para conhecê-la melhor, saber a sua origem e período de seu encanto perdurou por algum tempo, sendo que ao indagar de um ou de outro, ouviu pela primeira vez tratar-se da “flor-de-baile” ou “dama-do-baile” dadas suas aparições noturnas. Quando das indagações, ele conheceu alguém que iria ajudá-lo na arte de plantar e cultivar flores e esse alguém, era uma moça tão bonita e vistosa quanto a flor visitante daquela noite.
No primeiro encontro com esse alguém falando apenas de flores, algumas palavras que poderiam ser ditas ficaram no cofre do coração e suas chaves, tão bem guardadas ficaram que desapareceram do olhar. Aquele encontro poderia ser o início de um relacionamento humano bom e duradouro, ou mesmo, efêmero como o vento outonal ou a existência também efêmera daquela flor.
Acabou sendo o fim sem ter, sequer, começado. Ele, apesar de muitos anos vividos era tímido, acanhado e por quê não dizer, medroso ! Saber a origem da flor branca/leitosa bastava para ele. Sua opção de estar só não era entendida e nem mesmo compartilhada por circunstantes.
Refletia sempre e entendia que sua vida iria se recompor, ele era muito feliz nas suas múltiplas atividades e se faltava algum colorido, como ouvia dizer alhures, ele acreditava e havia evidências disso sobre esse tão falado, decantado e colorido amor; era questão de dar tempo ao tempo. Recebia sempre sugestões de passeios, viagens, freqüência aos clubes, restaurantes, arrumar namorada para um breve romance ou até mesmo relacionamento de maior duração; tais sugestões, individualmente, mereciam de sua parte uma forte decomposição das idéias.
Se era para sonhar que esse sonho fosse de olhos abertos. A imparcialidade do grande espelho da sala e a sua visível longevidade não deixavam dúvidas; entendia não ter o direito de delegar à outrem as preocupações com as quais já se ocupava.
A lareira com sua boca inútil, estava longe de aquecer seu coração e as cinzas ainda visíveis, remanesciam do último inverno passado ao lado do seu inesquecível, verdadeiro e saudoso amor. Aquele alguém prestativo, dizendo à ele a origem da flor branca/leitosa, que surgiu do nada, apenas nas asas do vento, inoculou desejos de há muito tempo não experimentados…
Roque Roberto Pires de Carvalho
E-mail:roquerpcarvalho@gmail.com

Nenhum comentário:
Postar um comentário
tvjornalbotunoticias@hotmail.com