No sítio não havia telefones; telegramas só eram passados por telegrafistas da estação ferroviária através do Morse e em horários previamente fixados.
Cartas só eram retiradas nos Correios e jornais nas bancas da cidade. Independentemente das dificuldades a mãe tinha por hábito corresponder-se com suas irmãs escrevendo à tinta, caligrafia sempre no maior capricho.
Em um dia qualquer ela chama o filho caçula e outorga a ele a incumbência de ser seu secretário, respondendo e mantendo sintonizada a linha de comunicação com a parentela.
Ele aceitou de pronto as tarefas; era a oportunidade que precisava para melhorar sua caligrafia e ser o mensageiro de tudo o que ocorria na família e no sítio. Lembrou-se das missas domingueiras quando o padre dizia que a epístola era de tal Apóstolo.
Associou as palavras e sentiu-se responsável pelas cartas que a partir de então seriam epístolas; não bastava escrever, havia que encilhar o pangaré – cavalinho estradeiro e levar para o Correio.
No sítio habitava sua família e mais alguns arrendatários vizinhos e que agora poderiam também utilizar-se do escrevente recém nomeado.
Com as cartas seguiam as lembranças e as saudades, mesmo que a demora fosse longa, carregava em si, nas mal traçadas linhas, o calor do amor e do trabalho.
Provavelmente, quando fosse recebida pelo destinatário, um fio invisível faria a ligação contando da saudade, da saúde, do tempo, das dificuldades e da fartura na vida rural; falava também dos idosos que se ocupavam em jogar baralho, bocha ou pescarias.
Vez por outra uma fotografia era colocada no envelope com uma dedicatória à alguém. As cartas sempre foram portadoras do acontecido, notícias envelhecidas pelo passar dos dias e que se tornam vivas quando recebiam o estímulo da reciprocidade com outrem que também devia ter suas notícias também envelhecidas.
Não importava ! – Em verdade o que conta é o inestimável valor das lembranças e muitas ficaram guardadas ou esquecidas nas gavetas do tempo. Um dia abrimos a tal gaveta e encontramos cartas muito antigas… algumas, sequer respondidas e outras provavelmente tenham sido extraviadas nos caminhos tortuosos das longas distâncias…. As mais queridas, as mais saudosas ficaram no cofre do coração como portadoras de carinhos, portadoras de desejos na continuidade da amizade e da vida.
No presente tempo da modernidade em comunicações é possível acreditar que ninguém mais procure nas gavetas cartas antigas para leitura e se, eventualmente, se alguma for encontrada o veterano escrevente lançava seus agradecimentos a esse alguém que, ao invés de rasgar, guardou…
Roque Roberto Pires de Carvalho
e-mail:roquerpcarvalho@gmail.com

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