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terça-feira, 6 de outubro de 2020

CARTAS -- COLUNISTA — Roque Roberto Pires de Carvalho

 


COLUNISTA — Roque Roberto Pires de Carvalho

 No sítio não havia telefones; telegramas só eram  passados por telegrafistas da  estação ferroviária através do Morse e em horários  previamente  fixados.

Cartas  só eram  retiradas  nos  Correios  e  jornais nas   bancas da cidade. Independentemente das dificuldades a mãe tinha por hábito corresponder-se com suas irmãs  escrevendo à  tinta,    caligrafia sempre no maior capricho.

Em um dia qualquer ela chama o filho caçula e outorga a ele a incumbência  de ser seu secretário,  respondendo e mantendo  sintonizada a  linha de comunicação com a parentela.

Ele aceitou de pronto as tarefas;  era a oportunidade que precisava para melhorar sua caligrafia e ser o mensageiro de tudo o que ocorria na família e no sítio. Lembrou-se das  missas  domingueiras quando  o padre  dizia  que  a  epístola  era  de tal  Apóstolo.

 Associou as palavras e sentiu-se responsável pelas cartas que a partir de então seriam epístolas;  não  bastava escrever,  havia que encilhar o pangaré – cavalinho estradeiro  e  levar  para  o Correio.  

No sítio habitava  sua família e mais alguns  arrendatários vizinhos e que agora poderiam também  utilizar-se  do  escrevente  recém nomeado.

Com as cartas seguiam as lembranças e as saudades, mesmo que a demora fosse longa,  carregava em si, nas mal traçadas linhas,  o calor do amor e do trabalho.  

Provavelmente, quando fosse  recebida  pelo  destinatário,  um fio invisível  faria  a ligação contando  da  saudade, da  saúde, do tempo,  das dificuldades e da fartura na vida rural;  falava também dos idosos  que  se  ocupavam  em  jogar baralho,  bocha ou pescarias.

 Vez por outra uma fotografia era colocada no envelope com uma dedicatória à alguém. As cartas sempre foram portadoras do  acontecido, notícias  envelhecidas pelo passar dos dias e que  se tornam vivas quando  recebiam  o estímulo da  reciprocidade com outrem que também devia  ter suas notícias também  envelhecidas.  

Não importava  ! – Em verdade  o que conta  é o inestimável valor das lembranças e muitas ficaram  guardadas ou esquecidas nas gavetas do tempo. Um  dia  abrimos  a  tal gaveta e encontramos  cartas muito antigas… algumas,  sequer respondidas  e  outras  provavelmente tenham sido  extraviadas  nos caminhos  tortuosos  das longas distâncias…. As mais queridas, as mais saudosas ficaram no cofre do coração como portadoras de carinhos, portadoras de desejos na continuidade  da  amizade e da vida.

No presente tempo da modernidade em comunicações é possível acreditar que ninguém mais procure nas  gavetas cartas antigas para leitura  e se, eventualmente, se alguma for encontrada o veterano escrevente lançava seus agradecimentos  a esse alguém que, ao invés  de  rasgar,    guardou…

                                                       Roque Roberto Pires de Carvalho

                                                      e-mail:roquerpcarvalho@gmail.com



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